Desde moleque andava sozinho pelo bairro, e fui fazendo minhas amizades. Lá pelos meus sete, oito anos, não frequentava bares sozinho, somente com meu velho (que, aliás, completaria 61 anos hoje se não tivesse ido embora tão cedo). Meu pai gostava do extinto bar do seu Antônio - que ficava aqui na esquina de casa -, do extinto Divino bar, do extinto bar Comodoro, e do bar que entrou em extinção há pouco menos de um ano, o Rio-Brasília. Eu andava pra lá e pra cá ao seu lado, e esperava com a maior paciência do mundo que ele terminasse de beber suas cervejas e doses de conhaque Presidente. Papai me achava meio estranho pelo simples fato de não pedir coca-cola igual aos outros garotos, preferia, e ainda prefiro, água tônica. Pois então, meu caros, sem me dar conta já estava fazendo amigos de balcão, e alguns daquela época permanecem até hoje.
Eu era criança mas não era trouxa, e sabia que com o meu comportamento exemplar dentro dos botecos poderia conseguir meus objetivos. E na maioria das vezes conseguia. Quando saíamos do saudoso Divino depois de algumas horas (que saudade do garçom Celestino, xará do meu tio), sempre suplicava ao meu velho pra que entrássemos no fliperama da rua do Matoso, onde atualmente fica um salão de cabelos. Papai jogava pimball, e eu ficava em qualquer um que tivesse volante. Do outro lado da rua, ainda na Matoso, ficava a loja da Caloi, onde hoje é a vidraçaria Rio de Janeiro. Ali fazia a manutenção de minha Caloi dobrável ano 1981 (que tenho comigo até hoje guardada), e meu pai fazia na dele, uma Caloi 10 ano 1979, que é minha atual bicicleta.
Ao lado de minha casa havia a loja da Kibon, na Barão de Itapagipe (hoje o estacionamento do Bradesco Seguros). Rodeava aquele lugar, era na esquina da rua! O Baiano, nunca me esquecerei daquele vendedor negro, magro e cheio de guias brancas e vermelhas no pescoço, fazia fiado pra mim quando pegava meus picolés. Saía dali achando que mandava no pedaço, mas depois descobri que meu coroa acertava no fim do mês. Raramente pintava na sorveteria Sem Nome, que situava-se na esquina de rua do Bispo com Haddock Lobo, pois lá não havia picolé, só casquinha. Passava por lá somente com a família inteira, quando fazíamos um passeio dominical.
Ao lado do colégio Carrescia ficava a fábrica do cachorro-quente Genial, que veio a findar no final dos anos oitenta. Também não andava muito por ali. Gostava de doces, ainda gosto, e pirava mesmo dentro da doceria Popeye, que resiste firme e forte, mesmo em épocas futurísticas, defronte a colégio Mario Cláudio. Doce de abóbora e balas dulcora eram meus preferidos. Quando era maiorzinho papai me deixava ir sozinho até a Gerbô, na Mariz e Barros, e me deliciava com a Vaca Preta da casa. Quase sempre fazia isso sem a sua presença, pois ele não aparecia muito pelas bandas da Afonso Pena. Suas ruas preferidas eram a Haddock Lobo (na altura da Matoso), a Matoso, Barão de Itapagipe, Sampaio Ferraz (no Estácio, ele amava o Estácio), Aureliano Potugal com rua do Bispo (no Rio Comprido) e nossa, a Barão de Sertório.
Aos treze anos, quando começei a trabalhar com ele, fazíamos algumas compras para seu bar (ele sempre trabalhou nisso) no Superbox, atual Extra da Mariz e Barros. Achava o supermercado imenso! Era também na Mariz e Barros que ele comprava seus carros, sempre no antigo posto Lord. Seu predileto era o Corcel II, adquiriu três ali.
Como podem ver, o amor que sinto pela Tijuca deve-se muito ao velho Manolo. Nasci aqui graças a ele e cresci aqui graças a ele. Claro que mamãe também está nessa. Um homem que veio muito novo como imigrante, se instalou na Tijuca, e daqui nunca mais saiu. Teve condições financeiras para morar em qualquer lugar da zona sul mas nunca largou seu quarteirão. Prezava muito a amizade e suas caminhadas pelas ruas do bairro. Lembro-me que quando completei meus dezoito anos, seis meses antes de seu falecimento, bebemos nossa primeira cerveja juntos, no balcão do bar do seu Antônio. Ele bebia Antartica.
Bom, vida que segue, e viva a Tijuca, mais bela do que nunca. Felizes são os que vivem por suas ruas, os que amam este lugar, os que se emocionam com sua gente, os que têm história pra contar. Eu sou um felizardo.
Até, e parabéns velhão.






















