09 Julho 2009

UMA INFÂNCIA NA TIJUCA

Desde que nasci moro na Tijuca. Tantas coisas se passaram e muitas delas estão em minha memória. Como ainda vivo no bairro, continuo colecionando momentos para guardar eternamente, ou pelo menos até a cachola suportar. Fiz tudo o que um garoto criado na rua fez, e não tenho recordações ruins, muito pelo contrário. Brincava bastante, mas a pelada no asfalto era o principal passatempo.

Desde moleque andava sozinho pelo bairro, e fui fazendo minhas amizades. Lá pelos meus sete, oito anos, não frequentava bares sozinho, somente com meu velho (que, aliás, completaria 61 anos hoje se não tivesse ido embora tão cedo). Meu pai gostava do extinto bar do seu Antônio - que ficava aqui na esquina de casa -, do extinto Divino bar, do extinto bar Comodoro, e do bar que entrou em extinção há pouco menos de um ano, o Rio-Brasília. Eu andava pra lá e pra cá ao seu lado, e esperava com a maior paciência do mundo que ele terminasse de beber suas cervejas e doses de conhaque Presidente. Papai me achava meio estranho pelo simples fato de não pedir coca-cola igual aos outros garotos, preferia, e ainda prefiro, água tônica. Pois então, meu caros, sem me dar conta já estava fazendo amigos de balcão, e alguns daquela época permanecem até hoje.

Eu era criança mas não era trouxa, e sabia que com o meu comportamento exemplar dentro dos botecos poderia conseguir meus objetivos. E na maioria das vezes conseguia. Quando saíamos do saudoso Divino depois de algumas horas (que saudade do garçom Celestino, xará do meu tio), sempre suplicava ao meu velho pra que entrássemos no fliperama da rua do Matoso, onde atualmente fica um salão de cabelos. Papai jogava pimball, e eu ficava em qualquer um que tivesse volante. Do outro lado da rua, ainda na Matoso, ficava a loja da Caloi, onde hoje é a vidraçaria Rio de Janeiro. Ali fazia a manutenção de minha Caloi dobrável ano 1981 (que tenho comigo até hoje guardada), e meu pai fazia na dele, uma Caloi 10 ano 1979, que é minha atual bicicleta.

Ao lado de minha casa havia a loja da Kibon, na Barão de Itapagipe (hoje o estacionamento do Bradesco Seguros). Rodeava aquele lugar, era na esquina da rua! O Baiano, nunca me esquecerei daquele vendedor negro, magro e cheio de guias brancas e vermelhas no pescoço, fazia fiado pra mim quando pegava meus picolés. Saía dali achando que mandava no pedaço, mas depois descobri que meu coroa acertava no fim do mês. Raramente pintava na sorveteria Sem Nome, que situava-se na esquina de rua do Bispo com Haddock Lobo, pois lá não havia picolé, só casquinha. Passava por lá somente com a família inteira, quando fazíamos um passeio dominical.

Ao lado do colégio Carrescia ficava a fábrica do cachorro-quente Genial, que veio a findar no final dos anos oitenta. Também não andava muito por ali. Gostava de doces, ainda gosto, e pirava mesmo dentro da doceria Popeye, que resiste firme e forte, mesmo em épocas futurísticas, defronte a colégio Mario Cláudio. Doce de abóbora e balas dulcora eram meus preferidos. Quando era maiorzinho papai me deixava ir sozinho até a Gerbô, na Mariz e Barros, e me deliciava com a Vaca Preta da casa. Quase sempre fazia isso sem a sua presença, pois ele não aparecia muito pelas bandas da Afonso Pena. Suas ruas preferidas eram a Haddock Lobo (na altura da Matoso), a Matoso, Barão de Itapagipe, Sampaio Ferraz (no Estácio, ele amava o Estácio), Aureliano Potugal com rua do Bispo (no Rio Comprido) e nossa, a Barão de Sertório.

Aos treze anos, quando começei a trabalhar com ele, fazíamos algumas compras para seu bar (ele sempre trabalhou nisso) no Superbox, atual Extra da Mariz e Barros. Achava o supermercado imenso! Era também na Mariz e Barros que ele comprava seus carros, sempre no antigo posto Lord. Seu predileto era o Corcel II, adquiriu três ali.

Como podem ver, o amor que sinto pela Tijuca deve-se muito ao velho Manolo. Nasci aqui graças a ele e cresci aqui graças a ele. Claro que mamãe também está nessa. Um homem que veio muito novo como imigrante, se instalou na Tijuca, e daqui nunca mais saiu. Teve condições financeiras para morar em qualquer lugar da zona sul mas nunca largou seu quarteirão. Prezava muito a amizade e suas caminhadas pelas ruas do bairro. Lembro-me que quando completei meus dezoito anos, seis meses antes de seu falecimento, bebemos nossa primeira cerveja juntos, no balcão do bar do seu Antônio. Ele bebia Antartica.

Bom, vida que segue, e viva a Tijuca, mais bela do que nunca. Felizes são os que vivem por suas ruas, os que amam este lugar, os que se emocionam com sua gente, os que têm história pra contar. Eu sou um felizardo.

Até, e parabéns velhão.

05 Julho 2009

SÓ NÓS SABEMOS COMO ELA É.

A Tijuca é minha terra, meu berço, meu sangue, minha vida. Neste mês completa 250 anos de existência, e seu aniversário está sendo bastante falado por aí, principalmente pelos tartufos de pior linhagem. Os meios de comunicação mais requisitados, como a tv e o jornal, só noticiam desgraças, ploriferam a mentira, criam preconceitos e pouco se importam com a Tijuca e zona norte. Outro dia ouvi a sórdida expressão "além túnel", para os que estão para lá da zona sul, numa idéia de afastamento, separatismo. As notícias boas sobre o bairro são raras, somente aparecem quando há algum interesse por trás. Coisa de gente vil. Falam de uma violência costumeira como se isso só houvesse, ou em quantidades muito maiores, na Tijuca. Quem conhece a cidade como um todo sabe que isso é uma farsa, a violência é parte de toda a grande cidade, e não me preocupo com esse tipo de coisa por aqui. Ando a qualquer hora e lugar. Não vale nem se aprofundar no assunto.

A Tijuca é um bairro que preserva valores, de habitantes cordiais. Não hesito em afirmar que é uma família. Vá para uma rua tijucana e viva seu cotidiano que não irá tardar em entender o que lhes digo. É a antítese do que é noticiado.

Os tijucanos amam tanto onde moram que dificilmente saem do bairro para alguma coisa. Fora o trabalho, que não se pode escolher o lugar, o resto é aqui. Temos tudo no bairro, e de qualidade. Supermercados, padarias de dar inveja, açougues como antigamente (acaba de abrir um na Haddock Lobo), floriculturas, armarinhos, jornaleiros, escolas, alfaiates, sapateiros aos montes, e inúmeros outros comércios. E os bares... Ah os bares... Há fartura de bares, e isso é preciso por aqui. O tijucano nato adora passar o dia na rua, em seus bares e praças, até cansar, sem preocupações com horário. Não posso esquecer de uma coisa, temos o Maracanã, simplesmente o Maracanã. Como diz meu sábio amigo Luiz Antônio Simas, tijucano maiúsculo, somente uma coisa falta na Tijuca, um cemitério. Quando chegar a hora de subir poderemos descansar tranquilos abaixo de sete palmos cavados nestas terras sagradas. Quem sabe um dia.

Eu que vivo aqui desde que nasci, há mais de três décadas, chego a achar que a Tijuca tem vida própria. Minha relação com o bairro é de uma afeto tão agudo, que por vezes tenho certeza que proseio com a Tijuca, tratando-a como uma mãe. E recebo dela todo carinho que um filho merece, sinto-me protegido em seus braços, em suas ruas, em seus cantos, ao lado de seus outros filhos, meus irmãos. Quantas vezes voltei só pelas madrugadas da vida depois de uma carraspana, cambaleando feliz por suas nobres calçadas, e sabendo que ela me levará com tranquilidade para casa. Este sentimento maternal consegui depois de muitos anos, depois de muita intimidade e respeito, depois de dar para a mãe Tijuca o tamanho do amor que ela merece.

Farão várias festas por causa do aniversário, e sei que muita gente que participará disso não merece pisar no bairro e muito menos falar o seu nome através de suas bocas encardidas. Vou ficar quieto no meu canto, rendendo minhas homenagens recolhido no meu quarteirão, vivendo a mesmice mais bonita do mundo.

Fico um pouco chateado com algumas pessoas, posso adjetivá-las de ordinárias, que têm a intenção de falar mal do meu lugar. Às vezes sou meio traquinas com elas, mas a Tijuca vai me perdoar. Ah vai...

01 Julho 2009

GLORIOSA NOITE NA GLÓRIA

Semana passada consegui um raro momento para beber cerveja. Um amigo meu aqui do trabalho, o Baiano, disse-me que seu tio estava de férias no Rio e procurava alguns bares sujos para beber.

Como ele zanzava pelo centro, saímos da labuta e fomos ao seu encontro. Baiano disse-me que o coroa gostava mesmo é de pé-sujo, então foi para onde o levamos. Primeiro levei-lhe no bar do seu Davi, glorioso botequim que impera na esquina de rua do Senado com Inválidos, onde terças e quintas cantam seu Jorge e seu Waldir. Vejam aqui e aqui.

Caminhamos por outros bares conhecidos, e andamos um bocado sem nos dar conta. Confesso que fazia um passeio para agradar o caboclo, e em certos momentos parecia turismo. Passamos rapidamente pelos arcos, e acabamos dando de cara com o Beco do Rato, que ele ouvira falar e queria conhecer. Teve tempo apenas de dar uma golfada diante do lixo que encontrou, com gente esquisita e "underground", e suplicou por um outro boteco.

Como o Chico, este é nome dele, ficou tão nervoso com o que viu, pediu um bar com urgência. A primeira coisa que pensei foi tirá-lo do infeliz burburinho daquele lugar, e o levei em direção a Gloria. Fomos, por sorte divina, parar diante de uma das mais antigas casas de saliência da cidade, a termas Rio Antigo. Perguntou-me se era um hotel, pois achou a arquitetura muito bonita e imponente, mas não precisou de muito tempo para notar que o ramo comercial ali era outro. Por causa de sua curiosidade exagerada com o lugar, acabamos entrando no bar localizado exatamente defronte à casa das primas, na esquina de Joaquim Silva com Augusto Severo. Chamam o local de bar Glorioso, mas não vi nenhuma placa no mesmo.

O lugar era escuro, sujo e escroto. Eu, que devo ser o cara que mais adoro estes balcões radicais, cheguei a torcer o nariz quando entrei. Mas é o que falo sempre, foi só começar a pedir as bebidas e comidas para ter a certeza de como sou feliz quando piso nos meus botecos. A cerveja chegou na minha frente fumegando mais do que a bomba atômica, de rachar os dentes. Os ovos que pedimos estavam fresquinhos, saudáveis, bons para caralho. E arrematamos com uma porção de fígado acebolado que nem minha vó faz igual. Nesta altura do campeonato o Chico já bradava na calçada atacando o tal do beco do rato com xingamentos que não posso escrever aqui. Delirava naquele canto imundo, doido para entrar no tal "hotel" e ver as meninas.






Os atendentes do pé-sujo eram mudos, somente colocavam os pedidos diante de nós. Anônimos diversos tentavam a sorte na jogatina. Do lado de fora, além de nós estava um coroão que mais parecia um desenho animado. O cara tinha uma juba estilo "black", daquelas que o João Saldanha reprovaria na certa, e estava mais imundo do que a cozinha do Belmonte. Trata-se de um mecânico da área, que vive por ali no intuito de ver as damas entrando e saindo do trabalho no "hotel". O cara é um negão de cabelo branco, e seu nome é Xavante. É complicado pessoal, mas é isso.

O cidadão estava meio na dele, fumando seu cigarrinho, mas depois de umas doses de São João da Barra e copos de cerveja já dançava Maicou Jéquison na calçada, para o aplauso dos que passavam e estavam ali. Convidou-nos para um churrasco que faz toda a semana, e disse que já comeu todo mundo dentro do "hotel", afirmando já ter até perdido a graça entrar ali. Foi um furdunço geral.







Eu sei o seguinte... A pouquíssimos metros dali, no calçadão da Glória, outras meninas desfilam pomposas e posudas, guardando no interior de suas vestes minúsculas dotes um pouco diferentes. Espero que nosso dançarino "black power' não tenha confundido o cardápio.

Salve o bar, salve o bar!

29 Junho 2009

ME DEIXEM ENGRAXAR OS SAPATOS.

O mundo moderno é preconceituoso. Tudo o que é moderno é levado ao trono, é o que deve ser feito, chega a ser ditatorial. Nos dias de hoje realmente não podemos viver sem modernidade, embora eu ache exagerada, mas deixem-me quieto com minhas manias e meu cotidiano. Querem que eu, e muitas outras pessoas que não são "antenadas", goste de coisas que não gosto, e faça coisas que não faço.

Já escrevi algumas linhas sobre isso aqui, mas volto ao tema depois de recentes ocorridos. Esta semana fui engraxar os sapatos perto do trabalho, na Praça Onze, com o Joilson. Joilson tem uma cadeira do tempo do onça, com braços de mármore e vários compartimentos para guardar as graxas, que ganhou quando chegou ao Rio vindo de Pernambuco. Muito confortável, diga-se de passagem. Orgulha-se de trabalhar ali, de ser engraxate, e com isso conseguiu uma casa em Bacaxá e um chevete 1984. Tem uma fiel clientela há anos. Meu horário preferido é depois do almoço, e como disse acima, lá estava eu, sentado, lendo o glorioso Jornal dos Sports, bebendo um café... O que acontece é que neste pequeno momento de relaxamento do meu cotidiano, sempre aparece gente para me encher o saco:

- Porra, Felipe, que coisa de velho, você na cadeira do engraxate!

E outro:

- Só conheço você que ainda engraxa sapatos...

Só podem estar de sacanagem comigo. Só eu que engraxo sapatos? Aonde vivem estas pessoas? Pouco me importa, mas deixem-me em paz.







Me chamam de velho porque escuto vinil, tenho vitrolas, vou ao alfaiate, engraxo os sapatos, bebo café na padaria, como ovo cozido, gosto do Nelson Gonçalves, escuto rádio AM, e outras coisas mais. Por que cargas d'água os moderninhos tanto se importam com os que têm gostos e cotidianos mais conservadores? Vivem como seguidores dessas igrejas fanáticas que sempre têm como objetivo catequizar otários. Querem porque querem fazer com que eu pare de gostar das minhas coisas só porque não são tão modernas.

Aviso aos desavisados que não mudarei, e peço que parem com a insistência, seus chatos duma figa. Coisas modernas pra mim são poucas as que prestam, mas isso não é motivo para eu ficar atazanando ninguém.

Dedico este breve texto ao Joilson, esta bela pessoa que faz parte do meu dia-a-dia, a quem desejo muita saúde para continuar no ramo por muitas décadas.

Até.

19 Junho 2009

A TIJUCA ESTÁ EM POLVOROSA

As ocupações profissionais e particulares estão fazendo com que eu mesmo visite este blogue muito raramente, mas com certeza logo virão tempos mais calmos e o ritmo voltará ao normal por aqui.

Venho mais uma vez com poucas linhas, e outra vez falando da Tijuca, meu bairro do coração. Embora com pouco tempo, estou sempre por dentro dos acontecimentos tijucanos. E não são poucos. Semana passada recomendei (veja aqui) o concerto do glorioso Carlos Evanney, que aconteceu no dia dos namorados, na sede do América.

Dia 11 de julho, no estádio Mario Filho, que fica na Tijuca, teremos o show do Roberto Carlos comemorando os cinquenta anos de carreira. Realmente esta é uma data muito esperada pelo pessoal da cidade inteira, e principalmente para os do bairro.

Na noite desta última quarta-feira, em mais uma saideira no bar Columbinha, o pé-sujo que me acolhe cada dia com mais carinho, me deparei com um cartaz surpreendente na parede de azulejos cafonas. Já estava numa carraspana daquelas, e por um certo instante pensei que fosse efeito da cachaça. Mas não era.

No mesmo dia 11 de julho, dia em que o rei Roberto estará se apresentando no maior do mundo, outro Roberto, desta vez uma atração internacional, estará se apresentando também na Tijuca. A Casa de Vila da Feira e Terras de Santas Maria (falei dela aqui) terá uma noite de gala com o astro Roberto Leal, ele mesmo, autor da famosa canção "Bate o pé".

Imagine você a preocupação que Roberto Carlos deve estar com essa notícia. Uma séria ameaça ao público do Maraca. Roberto Leal lotará a casa portuguesa da Haddock Lobo, com certeza, e a colônia alfacinha comparecerá em peso. Parece que vai ter vinho de barril à vontade, e sardinhada na brasa.


Há rumores que ao final do concerto no Maracanã, o rei Roberto ainda dará uma palhinha no palco do Vila da Feira ao lado de seu xará, fechando a noite dançando o vira.

Até.

09 Junho 2009

DIRETO DA CAMPOS SALES

* Acabou a promoção safada do Diário Lance. Junta-se 25 selos e paga-se R$39,90 por uma camisa de alguma destas equipes cariocas: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. Caso queira, por mais R$29,90 leva-se a do América, numa promoção que os pequeninos e infelizes jornalistas chamaram de "Minha Segunda Paixão". O que eu estou vendo de gente com a camisa do América nas ruas não está no gibi, o problema é que são torcedores de outros times. Uma lástima, um vergonha, humilhação, coisa que o América não merece e nem precisa. Torcedor bom é torcedor de uma equipe só. Não veste, jamais, o manto adversário. E o Diário Lance apenas me deu a certeza de que o velho Jornal dos Sports é infinitamente melhor.

* Fechamos com mais um patrocinador. Além da Unimed, temos agora a Uniodonto, uma empresa de planos odontológicos que abrange todo o Brasil.

* A equipe rubra fez seu primeiro jogo-treino com o novo plantel, que disputará a série B do carioca. O jogo foi realizado na última sexta à tarde em nosso estádio, sob os olhares de 200 torcedores, contra o SW Barcelona. Ganhamos por 9 a 0. O técnico Clóvis de Oliveira teve a oportunidade de testar vários jogadores.

* Sexta-feira é dia dos namorados, e fica aqui a minha recomendação para quem ainda não sabe onde levar a amada. Carlos Evanney, o cover oficial do Roberto Carlos, fará um concerto histórico na sede do América. É a certeza de uma noite romântica, a mais romântica, na Tijuca.

Até.

03 Junho 2009

NOSSOS JORNALEIROS DE OUTRORA

Aproveitando a onda dos textos de meu querido amigo Luis Antônio Simas (leiam aqui e aqui), resolvi lembrar um pouquinho de um personagem fundamental da infância de outrora, o jornaleiro. Qualquer guri tinha o jornaleiro de sua rua como um parceiraço, um amigo acolhedor, uma pesssoa essencial em nossa educação.

Já escrevi algumas vezes aqui sobre o jornaleiro da minha rua, o seu Antônio. Quando era moleque, frequentava a escola, e não tinha preocupação nenhuma além dessa, vivia no jornaleiro. Eram horas do lado de dentro ou ao redor da velha banca. Seu Antônio, o único italiano botafoguense que conheci, sempre deixava que eu ficasse na banca "ajudando" ele, lembro-me que entregava jornal e revistas para os fregueses. Meu pai, que era muito seu amigo, tinha uma conta na banca, e acertava sempre no fim do mês. Sei que todo o dia pegava o glorioso Jornal dos Sports.

É bom recordar que o lado de toda banca que se preze, existe, ou existia, um apontador do jogo do bicho. Era batata.

Na banca do seu Antônio eu comprava meu álbuns e minhas figurinhas, um cotidiano quase extinto hoje, já que os álbuns são poucos, e os que estão disponíveis ninguém coleciona. Revista de sacanagem nem se fala, foram várias, daquelas suecas, que "li" na banca da rua, várias. Hoje elas nem existem mais, a garotada vê tudo pela internet, quando vêem, pois na maioria das vezes estão jogando video game. É a coqueluche da nova geração, só se faz isso. Talvez aí podemos explicar o número crescente de viados no planeta.

Outra coisa agravante é o número absurdo de jornaleiras! Nada contra as mulheres, por favor, mas dono de banca tem que ser homem. Em hipótese alguma as jornaleiras irão liberar uma revistinha pornográfica para a criançada, vão mostrar a revista Caras, Boa Forma, Capricho, Tititi... Voltamos mais uma vez, então, para o índice de viadagem que falei acima.

Podemos afirmar que é gritante a ausência de jornaleiros, e quando há um na rua, não temos mais aquela frequência de outros tempos. A gurizada está cada vez mais longe desse tipo de educação necessária, a educação da vida, do politicamente incorreto.

Hoje, a companheira da meninada, que educa, "diverte", dá conselhos, e diz o que está certo e errado, é uma tela de vidro.



Até.

29 Maio 2009

SIMONAL

Está em cartaz nos cinemas a película "Simonal, ninguém sabe o duro que dei". Chego agora do glorioso cine Odeon, o único de um bairro chamado CINElândia, depois de assistir ao documentário. Não sou nenhum crítico de filmes, e não entendo bulhufas de jargões refinados para defender opiniões. Sei somente que o troço me emocionou, e isso basta.

Recomendo que vejam, de preferência no Odeon, a história deste belo cantor, negro e brasileiro.


Até.

27 Maio 2009

UMA TARDE EM MARECHAL HERMES

Estive no último domingo em Marechal Hermes. Um amigo meu que mora no bairro vive me falando do Bar do seu Zé, e jura que é reduto de torcedores do América. Tive que conferir. Peguei o trem na Central do Brasil, e em 25 minutos estava na estação de Marechal, que na minha opinião é a mais bonita de todas. Entrei na rua Cabrália, e em poucos instantes já pousava meu cotovelo no balcão.

Cada vez que vou para o subúrbio tenho a certeza de que terei um grande dia. As pessoas são acolhedoras demais, te levam pra dentro de suas casas, contam suas intimidades como se você fosse um irmão... Fazem a vida valer a pena sem dinheiro, sem "olho grande", sem ganância. Uma tarde bonita com os amigos no bar não tem preço, e é uma das poucas coisas que levamos de bom nessa vida. Esse é o pensamento do suburbano, do tijucano, do morador da zona norte. Difícil alguém fugir da regra, até porque não faz sentido se descabelar por dinheiro, pois caixão não tem gaveta.

Fui apresentado aos senhores do local, que com muita elegância me receberam. Barrigas enormes à mostra, pés, que mais pareciam cascos, na sua maioria pisavam descalços no chão sofrido, arrotos eram distribuídos com abundância, e juntamente com gargalhadas altíssimas formavam a orquestra da casa.

Um homem que bebia sua cerveja na caneca do América chamou-me a atenção. Puxei uma prosa, que cinco minutos depois virou festa. Sentei-me à mesa com Gilmar, este é o nome do caboclo, que começou a cantar o hino rubro de forma doentia, aos brados. Mostrou-me sua carteirinha de sócio remido e outra carteira de fundador da torcida inferno rubro. Derrubamos umas geladas com a companhia de Givaldo, seu amigo botafoguense, e seu cunhado Geraldo. O churrasquinho comia solto na porta do boteco, e em certa hora percebi que já fazia parte do local. O subúrbio é assim mesmo.

Gilmar pediu licença para se ausentar um instante, saiu do bar, entrou num opala marrom, e partiu. Em quinze minutos estava de volta, com um largo sorriso na cara e uma sacola na mão. Aproximou-se de mim e disse:

- Toma. É o "kit" do América.

Agradeci, muito surpreso, enquanto tirava as coisas de dentro da sacola. Era um cd, uma bandeira, um calendário e uma camisa da Inferno Rubro. Imaginem como foi depois... Uma cervejada daquelas.

O bar do seu Zé é alegre, definitivamente não é um reduto para os boêmios que querem curtir uma fossa. Tem uns petiscos de saquinho, como azeitona e tremoços, e alguns frios. Bebida é o forte da casa, tem até água-raz.

Fiquei até o filho do seu Zé fechar as portas, e fui convidado para um evento chamado chapéu de palha, que vai acontecer no próximo sábado. Trata-se de um samba feito pela velha-guarda local dentro do bar. Toda a coroada, logicamente, usando seus chapéus, unidos mais um dia. Deve ser muito bacana, emocionante.

Fica aqui a dica.



Chegando em Marechal...



Prateleira com escudo rubro...


Os senhores do local...



...vivem a amizade no balcão.



A moda.



O São Jorge do bar.



Gilmar com a caneca de sua paixão...



Com a carteirinha...



E depois de me entregar alguns regalos.



Hora de ir embora.



Esperar o trem e ir pra casa feliz.



Até.

22 Maio 2009

CASA DA VILA DA FEIRA

Aproveitando mais um texto de meu amigo Eduardo Goldenberg sobre a Tijuca (leia aqui), lhes direi algo também.

Vivo no bairro desde que nasci, há mais de trinta anos, e sou feliz, muito feliz por isso. Existem particularidades que só a Tijuca tem. Se tivesse nascido no Centro da cidade, Zona Portuária, ou subúrbio, ficaria muito contente também. A zona sul, que tem coisas boas, embora pouquíssimas, é o resto. A Barra é outro planeta, com outros seres, muito fora dos padrões humanos. Deixa quieto.

Venho para falar da quantidade absurda de clubes que estão no meu bairro, são mais de vinte! O Tijucano é um povo acostumado a frequentar sua piscina, jogar sua sinuca, seu carteado, e participar dos diversos bailes oferecidos. O Club Municipal é craque nisso. Os bailes de lá ficam lotados. A gafieira e a dança de salão sempre tiram o morador "pé-de-valsa" de casa.

Além do América, que é o melhor disparado, tenho um carinho especial pelos clubes portugueses. Desde bem molequinho - como podem ver na imagem - estão no meu sangue. O Vila da feira e Terras de Santa Maria foi o primeiro lugar onde tive convívio social com as pessoas do bairro, bem antes da escola. Lá aprendi a nadar, a respeitar os mais velhos, a admirar as pessoas e seus atos, pude ver a coroada enchendo o pote de vinho e cerveja enquanto jogavam dominó, e sempre em família. Vários bailes de carnaval pulei naquela velha quadra, qualquer dia coloco uma foto desses tempos. É emocionante lembrar disso. Meu amor pela Tijuca começou lá dentro. Outro dia mesmo entrei no clube para falar com um amigo e fiz um "tour" para relembrar os anos passados. Quase nada mudou, a piscina, o bar, a quadra, a secretaria com suas máquinas de escrever da marca Olivetti que ainda trabalham a todo vapor, a velha roleta de entrada. Tem que ter respeito. Frequentei muito a Casa dos Polveiros e o Clube do Porto também. Além desses ainda temos outros quatro grandes clubes de origem portuguesa em nossa região.

Nos fins de semana sempre realizam festas maravilhosas para reunir a colônia. Vinho até dizer chega, sardinhada, galeto, danças típicas e o escambau. É bom demais ver o bairro unido bebendo e dançando.

Isso parece ser uma coisa pequena, tola para alguns, mais tem um valor enorme para mim. Graças aos belos momentos vividos dentro desses lugares, conheci pessoas que são amigas até hoje, e devo a estes momentos do passado parte da minha felicidade do presente.

E foi minha Tijuca querida que me proporcionou tudo isso. Não consigo deixá-la!



Até.